As Filhas do Coveiro - 07 - ÚLTIMA SEMANA



Cena I

Gabriel| - Era uma vez em um vilarejo tão pequeno quanto o nosso um jovem rapaz de muita fé que vivia junto de seu pai, o coveiro da cidade, ele era um filho zeloso e obediente, que sabia muito bem aqueles com quem deveria se relacionar, que seria no caso apenas as pessoas da sua própria classe. O pai já era velho, estava doente e o rapaz sendo o primogênito tinha o dever de trazer o pão para a mesa de casa e sustentar toda sua família que além de seu pai era composta por sete irmãs mais novas. 

Um dia o jovem resolveu pedir emprego na casa da família mais rica e poderosa de toda a região, ele conseguiu o emprego de jardineiro da família, de pronto, cuidadoso como era transformou aquele espaço em um verdadeiro paraíso, lá foi onde conheceu a sua senhora, filha dos donos da casa, ela era uma jovem sensível e delicada, muito educada e atenciosa com os empregados, foi assim que os dois foram se aproximando, se aproximando, a ponto de se apaixonarem. Os dois começaram a se ver as escondidas, jamais que a família permitiria esse namoro, além disso, a moça já era prometida de outro fazendeiro da região também de sua classe.

Religioso, o jardineiro devoto nunca perdeu a fé que um dia poderia ter a bela dama em seus braços, de que forma? Assim ele pensou sempre ajudando seu pai com os enterros e como só quem tinha posses tinha direito a um túmulo ele conhecia muito bem quem estava enterrando. Durante todos esses anos enquanto o pai se descuidava ele arrancava os dentes dos cadáveres que ainda em vida possuíam o hábito de colocar dentes de ouro, o rapaz muito trabalhador também era marceneiro e fazia santos para igreja, e era neles que ele depositava todo o ouro que retirava, ao longo de anos e anos ele conseguiu acumular uma grande fortuna. Contente, pois assim poderia comprar o dote de sua amada e assim casar-se com ela. Mas não foi bem assim que aconteceu, era tarde demais, a moça já estava casada com o fazendeiro prometido.

Infeliz com o matrimônio, ela continuou a ver o rapaz que se tornou então seu amante, em um dos encontros apaixonados a moça sugeriu a ele que se juntasse a ela para assim matarem o esposo e ela poder ficar com a fortuna e o amado. Louco de amor ele aceitou imediatamente, ele topava qualquer coisa para ter essa mulher do seu lado, e foi assim, portanto, que numa noite sombria enquanto o marido da bela dormia, o rapaz entrou escondido na mansão, tudo já premeditado com a cúmplice, mentora do crime, a porta do quarto havia ficado aberta e assim entrou, com um machado partiu no meio o esposo da sua senhora que repousava e morrera naquele mesmo instante.

Ensanguentado, mas contente com o feito começou a beijar a amada, que não o correspondeu e começou a gritar desesperada. O rapaz não entendia nada, só foi começar a entender tudo quando o levaram preso, a moça havia armado tudo e o usado como isca para conseguir o seu objetivo, o de unir as fortunas do marido com as suas e tornar-se a senhora mais poderosa de toda a região. Sem piedade, ela convenceu e persuadiu toda a cidade a condená-lo, e assim foi feito, o rapaz foi levado à praça pública, crucificado, em seguida, ela ordenou que ateassem fogo sobre ele, antes disso, ela foi até ele e sussurrou em seu ouvido que tinha preparado algo para os dois, para ele não desistir dela que o que ela estava fazendo era necessário para que os dois ficassem juntos na eternidade. Em seguida, ela ordenou que ateassem fogo, o rapaz gritava que voltaria e se vingaria de todos que o havia condenado, todos ficaram ali presentes até seu suspiro final.  Após o ato, uma ventania atingiu a vila e toda sua cinza se espalhou pela cidade, o pai que chorara de longe a morte do filho lamentou não poder recolhê-las para tê-las como recordação.

No outro dia todos os santos da igreja misteriosamente sumiram ninguém nunca soube do paradeiro. A bela dama? Ah ela tornou-se a mais poderosa, a dona da cidade. 

Secretamente ela esperava agora uma criança que não era bem vinda, foi uma gestação bem turbulenta de muita dor e infelicidade, a mulher possuía o intenso desejo de se alimentar de carne humana, mais precisamente coração. Ela passou então a visitar o cemitério e lá obtinha sua principal fonte de alimento. Assim que teve a criança, um menino com aparência diabólica, ela o abandonou em um cesto na porta da casa do coveiro, avô do menino, sabendo bem do que se tratava tudo isso, deixou bem claro qual deveria ser seu nome.

Demi| - Qual o nome da criança?

Gabriel| - Pedro, o mesmo nome do pai! Boatos que era a sua reencarnação que veio para continuar a sua vingança...



Demi| - Papai, eu estou estarrecida com essa história, eu tenho é pavor desse tal de Pedro, nosso Deus não permite essas coisas (deitada em sua cama onde Gabriel sentado lia o livro da família, Demi o abraça).



Gabriel| - Calma minha filha isso é apenas uma lenda (fecha o livro) Você já é uma mulher (sorri) Parece que foi ontem você nessa cama e eu contando histórias de princesas.

Demi| - Eu não quero me separar nunca de você papi!

Ladra, a governanta observava tudo atrás da porta.

Gabriel| - Nós nunca vamos nos separar, minha filha... Aliás, querida como você se sentiria se eu encontrasse alguém, resolvesse me apaixonar novamente, não seria ótimo para nós dois?

Ladra se interessa pela conversa escondida atrás da porta

Demi| - Tipo uma nova mãe? Não estou disposta, daddy, eu só tive uma mãe e ela era e sempre será única! Além do mais, o senhor já tá um pouco passado para ficar alguém, deixa pros mais novos, velho, seu tempo já foi, ok?

Gabriel fica pensativo

Gabriel| - Você tem razão (sorri sem graça, a beija na testa) – Foi só um devaneio meu, agora é melhor você dormir.

Ladra sai correndo da porta e Gabriel a repreende no corredor.

Gabriel| - Dona Ladra, você ainda está acordada?

Ladra| - Pois é meu caro prefeito Bombom, não tenho conseguido dormir muito bem, umas ratazanas tem incomodado o meu sono...


Gabriel| - Não me diga que estamos com problemas de ratos aqui em casa?

Ladra| - Não, imagina senhor bombom (o seduz, pegando em seu ombro) – Jamais, eu nunca deixaria isso acontecer, debaixo do meu nariz nenhum mal entra nesse lar. Aliás, o senhor não quer tomar um chá comigo na cozinha?

Gabriel| - Eu adoraria Ladra, mas preciso resolver uma papelada e uns negócios, obrigado, agradeço a sua bondade e lealdade (pega no queixo dela, ela suspira de desejo pelo patrão) – Ladra você sempre esteve tão presente nos momentos bons e ruins dessa família, sempre generosa, amiga, leal, não sei como te recompensar por esses ótimos anos... Você é uma mulher de fibra, perfeita...

Ladra| - Ai seu bombom, assim eu fico sem graça (faz charme, quase abrindo seu roupão).

Gabriel| - Melhor você ir dormir, eu e meus devaneios rs. Boa noite Dona Ladra. (Entra no escritório).

Ladra fica sonhando acordada “Ele está apaixonado por mim, bingo!”.

Cena III

Cemitério de Montemort:

Estressado Leonardo, o coveiro lavava alguns túmulos. Misterioso, ele observa a presença de alguém, ele encontra um rapaz muito bem vestido, estiloso deitado próximo a uma lápide.

Leonardo| - Quem é você?

O rapaz assustado se levanta, prestes a fugir.

Leonardo| - O gato comeu sua língua? Você nunca esteve aqui por essas redondezas não é? Seu pai sabe onde você tá? Você sabe onde tá?

O garoto olha para uma placa do lugar e fala amedrontado

Lordy| - Mon-te- Monte-morte, estou em Montemorte, eu estou apenas de passagem senhor, Eu não preciso dar satisfação para os meus pais, eu já sou maior de idade (mente).

Leonardo| - Sei, e qual é o seu nome?

Lordy| - Pedro.

O celular de Lordy começa a tocar, na tela indicava o nome do contato que ligava desesperadamente “Pedro”.

Leonardo| - Você não vai atender?

Lordy| - Não, não é nada de importante (ignora a ligação). Tem algum banheiro aqui?

Leonardo| - Vou pegar a chave, lá na casinha, espera aí.  (Leonardo encosta a mangueira no chão e se retira)

Lordy fica sozinho, seu celular volta a tocar, frustrado reclama:

Lordy| - Ai Pedro, você não larga do meu pé mesmo rs (Quando olha no visor de seu celular era uma mensagem que não esperava, ele fica assustado com o conteúdo escrito).

Mensagem de Pedro:
 “Não adianta fugir, uma vez que cruzou com o mal ele sempre andará com você, até na sua cova!”
Lordy fica apavorado, olhando para os lados, sem que perceba as suas costas uma mão negra coberta por luvas pega uma pá e atinge sua cabeça, o rapaz desmaia, essa pessoa arrasta seu corpo, puxando-o pelos pés.


Minutos depois

Leonardo retorna com as chaves nas mãos, mas não encontra o jovem.

Leonardo| - Pedro a chave para o banheiro. Pedro? Se mandou. Esses jovens de hoje em dia (resmunga e volta a trabalhar com a mangueira)

Madame Sabina surge no local

Leonardo| - Que susto!

Madame Sabina| - Mortaaaaa, eu sei que sou misteriosa dyvo, mas ainda não virei assombração queridooooo.

Leonardo| - O que você faz aqui?

Madame Sabina| - Eu prometi, e consegui, sua filha Marina está comigo em minha casa de moças.

Leonardo| - Eu não tenho mais filha (resmunga) – A única que eu ainda tinha fugiu com o padre, tá todo mundo comentando, não tenho nem onde enfiar a cara de tanta vergonha.

Madame Sabina| - Mortaaaa, você sabe muito bem que tem uma filha, nossa filha, Cristal.

Leonardo| - Eu não conheço essa garota, nem reconheço como filha minha, ela é problema seu! Não te perdoo nunca por ter me usado e engravidado só para me separar da sua irmã, você não vale nada sua puta!

Madame Sabina| - Mortaaaa, ai Leonardo, minha irmã já tá apodrecendo nessa terra, eu tô aqui prontinha pra você meu dyvo (ela levanta as saias e começa a se masturbar na frente dele) – Vem gostosooooo, me fode bem gostosooooo que nem naquela noite, eu tenho me guardado só pra você meu anjooooooo.


Leonardo liga a mangueira que usava para lavar os túmulos e a esguicha em direção a Madame, que mesmo assim não se incomoda e segue fogosa.

Madame Sabina| - Aiiiii que mangueirãooooooo, eu quero é a outraaaaaa, esguicha tudo em mim, vou ficar molhadinhaaaaaaaaaaaa.

Leonardo se retira e a deixa com o dedo na boca de vontade.

Cena I

Mansão Aristocrata

Na Sala: Gaby e Slim estavam acompanhados dos filhos Deprê e Vini.

Gaby| - Onde está o seu noivo Thiago, filha?

Deprê| - Ele está no escritório, está recebendo o advogado, o tal doutor João Paulo...

Gaby arregala os olhos, Slim fica pensativo.

No escritório: Thiago e o advogado João Paulo tem uma conversa séria, Thiago seguia se embriagando muito.

Thiago| - Aceita um drink doutor? (bebia um copo seguido do outro)

João Paulo| - Não, obrigado (olha assustado).

Thiago| - Então o que você tinha para falar?

João Paulo| - Olha Thiago, tenho acompanhado o histórico de gastos da fortuna da sua família, sua riqueza tem sido corrompida de uma velocidade impressionante...

Thiago| - O que você está sugerindo?

João Paulo| - O senhor tem perdido muito dinheiro em pouco tempo, recomendaria que contenha todos os seus gastos, ficaria até atento, sei que seus tios controlaram sua fortuna esse tempo todo, você confia neles?

Thiago| - O que você está insinuando? Eu vou me casar com a filha deles.

João Paulo| - Você a ama? Irá casar com comunhão de bens?

Thiago| - Claro (engole mais um copo de licor). Eu preciso deixar minha esposa, minha família, numa condição segura, nunca sabemos o dia de amanhã.

João Paulo| - Bom, eu não sou ninguém para dar minha opinião, o senhor deve saber bem o que faz. (o advogado se curva do hálito de Santos que suava a álcool).

Thiago| - Acho que não temos mais nada a discutir, com licença doutor. (João Paulo se retira, Thiago segue sozinho bebendo).

Na sala:

Os demais estavam em pé aguardando a saída do advogado. Slim repreende o advogado.

Slim| - Não sei o que tá se passando aqui, mas acho que o ideal é você manter o bico calado doutor.

João Paulo| - Isso é uma ameaça?

Gaby| - Jamais seria doutor, nós não somos de promessas.

João Paulo| - Com licença, estou de saída.

Deprê| - Posso te levar até a porta Joãooo (se insinua).

João Paulo| - Obrigado, eu sei o caminho, passar bem.

João Paulo se retira. Todos ficam zangados de braços cruzados com a presença do advogado.

Vini| - Se fuderam.




Pages