PRIMEIRO CAPÍTULO DE O ANATÔMICO
“A
morte é a certeza mais cruel na vida de uma pessoa. Causa medo na espera,
sofrimento, quando chega, alegrias para quem a deseja. A morte é um salário,
pago de acordo com os ‘serviços’ feitos aqui na terra. Se as obras foram boas a
morte trará a paz, se as obras prejudicaram o alheio, ela trará sofrimento. A
morte também é descrita como descanso, o fim de uma passagem e começo de uma
nova fase em um mundo espiritual. Mas muitos não conseguem descansar em paz,
uns por não merecerem, outros por não ser deixado descasarem. Existem seres
maldosos que encaram como arte atormentar, torturar o corpo não habitado de uma
pessoa. Ditos anjos encarnados sedentos por sangue, esfomeados por carne e loucos
pela arte de cortar, usa seus dons para aliviar os seus prazeres, afogar as
amarguras”.
A
vida sem adrenalina e os hormônios do prazer não se vive e cada um tem um
método para ativá-los.
QUAL
O SEU?
CENA 1
Cidade de Monte Negro, 10 de maio de
1980
Já passava
das onze horas da noite e o pequeno Wagner de 7 anos brincava no seu quarto com
o boneco do seu herói favorito. Ele não gostava de dormir cedo, ainda mais
quando o seu pai voltava fora e embriagado das noitadas. O garoto muito novo
era o seguro de sua mãe. Ele gritava, pedia ajuda quando seu pai espancava a
frágil mulher que aquele garoto tanto amava e admirava.
Jéssica – Filho? Ainda acordado como sempre, não
é mesmo?
Wagner – Sim mamãe, esperando o papai chegar,
só depois, eu poderei dormir.
Mal terminou
de falar e seu pai chega, no mesmo estado de sempre, caindo de bêbado.
Jonas (gritando) – MULHER? CADÊ VOCÊ? MEU JANTAR ESTÁ
PRONTO?
Jéssica – Já está é frio, mais uma vez você
ficou até tarde na rua enchendo o “cú” de cachaça, deixando seu filho e eu aqui
sozinhos.
Não gostando
das palavras ditas pela sua esposa, Jonas se lança contra ela pegando-a pelo
pescoço imprimindo muita força começa a enforcá-la.
Jonas (gritando) – NÃO PEDIR SUA OPINIÃO SOBRE MEU ESTADO
SUA VAGABUNDA, OLHA COMO VOCÊ FALA COMIGO, EU SOU SEU HOMEM, VOCÊ ME DEVE OBEDIÊNCIA,
SUA VOZ NÃO PODE SER MAIS ALTA QUE A MINHA.
O garoto ouve
o inicio da confusão, ele nem mais se assusta, pois já eram comuns as brigas.
Então ele parou de brincar e começou a escutar e olhar tudo que acontecia pela
fresta da porta que estava entreaberta.
A mãe viu que
o menino olhava e com um sinal pediu para que ele fechasse a porta e ficasse
dentro do quarto.
Jonas (gritando) – HEIM VAGABUNDA ESCUTOU O QUE EU FALEI?
Quase sem
fôlego ela responde
Jéssica – E-e-escutei, a-a-agora me solta, você
está-me dei-i-ixando sem a-a-ar.
O marido
então solta o pescoço já a pegando pelos cabelos arrastando-a até a conzinha.
Ali ele começa as agressões. A mulher não encontra forças para lutar contra seu
marido que mesmo estando bêbado consegue lhe dar uma surra.
Hoje ele
estava diferente dos outros dias ele batia com mais força, com mais raiva.
Jéssica – Para Jonas, para se continuar fazendo
isso você vai me matar.
Jonas (gritando) – MAIS É ISSO MESMO QUE EU QUERO MATAR
VOCÊ SUA DESAFORADA.
O menino
ouvindo o desejo do pai sai do quarto e no desespero começa a gritar.
Wagner – PAI, POR FAVOR, PARA DE FAZER ISSO COM
MINHA MÃE, PAI, POR FAVOR.
O Pai, surdo
e mudo não dá atenção ao garoto e continua a espancar a mulher, até que então
ele pega a cabeça dela e lança contra a mesa.
O Menino ouve
aquele barulho abafado e fica horrorizado ao ver sua mãe cair no chão,
desacordada.
Jonas (gritando) – ISSO DESGRAÇADA MORRE. MAS PRIMEIRO
VOCÊ TEM QUE ME DÁ ALGUMA COISA. VOCÊ NÃO VAI PRO IRFERNO SEM PRIMEIRO DAR PRA
MIM.
Ele começa a
despir sua mulher parcialmente, puxa a braguilha e coloca o pênis para fora já
rijo. O marido começa a estuprar a própria esposa desacordada. O Menino vê toda
a cena em choque. Ele vê sua mãe sangrando na cabeça, na boca e na vagina. Ele
vê hematomas por todo corpo da mãe, mesmo assim ele não grita, ele não consegue
mais gritar.
Os vizinhos
ficam olhando para casa, onde estava acontecendo uma barbárie. Ninguém fazia
nada, pois acreditavam que era em vão.
CENA 2
Ao norte da
cidade de Monte Negro em uma casa de madeira bem humilde outra mulher sofre,
mas essa sofre com as dores do parto.
Marta (gritando) – OH-OH-OH-OH MEU DEUS QUE DOR INFERNAL
EU NÃO POSSO SUPORTAR, VOU MORRER VOU MORRER.
Margarida – Minha filha tenha calma seja forte a
criança já está nascendo.
Marta (gritando) – EU NÃO CONSIGO MAIS MÃE DOE DEMAIS.
Margarida – Para você vê como sofremos para ganhar
um filho, e você ai me desobedecendo e arrumando filhos sem ter como criar.
Marta (gritando) – TIRA MÃE TIRA ELE DAÍ TIRA LOGO,
ARRANQUE ISSO DE MIM AGORA.
Margarida – Vamos respire e força, vai, você consegue.
Após alguns
minutos de força e muita dor o bebê nasce.
Margarida – E uma menina, uma menina linda, se
parece com você.
Marta – Enfim nasceu, mas e agora o que vou
fazer?
CENA 3
Jonas
continua a estuprar a mulher sem nenhum remoço de vê-la sangrar.
Jonas – É isso que você merece sua
imprestável, é isso.
O menino já
se mostra atordoado de tão repugnante as imagens que ele vê. Então um ódio toma
conta daquele pequeno corpo, sentimento obscuro parecido com o que domou o seu
pai, não na verdade era mais forte. E tal sentimento fez com que ele pegasse a
faca que estava em cima da pia e utilizando uma força que estava além do seu
porte físico desferiu um golpe certeiro no pescoço do seu próprio pai.
Wagner (gritando) – SOLTE MINHA MÃE SEU MONSTRO, DEIXE
ELA.
A lâmina
cortou a carótida do Jonas, que sentindo o frio da perfuração olhou para o
menino congelando o olhar nele. Perdendo muito sangue o pai esfaqueado pelo
próprio filho não consegue permanecer naquela mesma posição. Ele tenta se
levantar mais sem sucesso cai com a faca enterrada em seu pescoço.
O menino
ainda com muito ódio parte para cima do seu pai. Ele puxa a faca do pescoço do
homem que grita e urina de tanta dor. O garoto estava com uma feição macabra e
com a faca nas mãos começou a esfaquear todo corpo do pai, ele cortava seu pai,
como uma criança com um giz de cera nas mãos, ele ‘pintava’ o seu pai de
vermelho. Não era um desenho bonito e sim uma imagem horrorosa. Mas sua mãe
ainda viva acordou e clamou.
Jéssica – Me-e-eu Filho pelo a-amor de De-eus
par-e-e.
Wagner
escutou a prece e parou.
Wagner – Mãe, você está bem mamãe?
Jéssica – Filho olhe o que você fez. Matou o seu
pai.
Wagner (chorando) – Ele mereceu, ele não é meu pai, eu não
quero um pai que faz mal a minha mãe.
Jonas ainda
respirava, tinha um pouco de energia que gastou proferindo palavras
nebulosas.
Jonas – Wa-a-agner vo-o-ocê é um demônio, que
vai crescer e vai fazer com outras pessoas o que você acabou de fazer comigo.
O Jonas dá o
ultimo suspiro e morre.
Jéssica – Meu filho saia daqui grite, peça
ajuda.
Wagner (chorando) – Vou chamar alguém para te ajudar mamãe.
Jéssica – Não dá mais minha vida, eu tenho que ir.
O menino se
levanta e fixa o olhar para frente como se estivesse vendo algo.
Wagner (chorando) – A senhora vai me deixar aqui sozinho,
mamãe? Não vai me fazer dormir com os seus carinhos e historinhas? Quem vai me
proteger do escuro?
- Fique, por
favor, mamãe não me deixe aqui eu não vou conseguir viver mamãe eu vou morrer.
MAMÃE, MAMÃE, MAMÃE.
O menino
chora com todas as forças, os vizinhos inquietos com tanto barulho tomam
coragem e invadiram a casa. As pessoas olharam o cenário, chocados muitos
começaram a chorar. O menino cai sobre o corpo da mãe e só saiu com a chegada
do veículo do IML.
CENA 4
Marta – Mãe faça alguma coisa, você sabe que
não posso ficar com essa criança e você também não. Encontre uma solução.
Margarida – Meu Deus, você é a mãe menina você
deveria arrumar uma solução.
Marta – Não sei o que fazer.
Margarida – Está bem, eu vou dar um jeito, um
jeito que não faça a criança sofrer.
Duas horas
depois já ao sul da cidade em frente à casa da sua patroa, a mulher olha para a
criança com os olhos cheios de lagrimas.
Margarida – Menininha, aqui você vai ter tudo que
merece você vai crescer e ser educada corretamente, você vai ser ‘gente’ de
verdade.
Margarida
coloca o neném enrolado em pedaços de lençóis e dentro de uma caixa de papelão
bem enfrente do portão da casa.
Margarida
– Deus me perdoe e perdoe minha filha também. Castigue-nos dando o melhor
para essa linda maravilha sua.
CONTINUA
Comentem, as críticas serão bem vindas
Obrigado e tenham uma boa noite.