SEGUNDO CAPÍTULO

SEGUNDO CAPÍTULO DE O ANATÔMICO

“O mal não descansa, procura de porta em porta moradia, um local para se hospedar, enraizar, destruir. O mal quer, é sua função trazer o inferno para vida dos seus hospedeiros. Ele quer sangue para oferecer a morte e sua cede insaciável. Quer carne para saciar a fome da morte. O mal que choro para servir de comédia para as criaturas perversas”.

 “Se o mal encontrar um hospedeiro ideal com certeza será fatal, a morte, a dor e o sofrimento será o resultado final”.

CENA 1

Marta (preocupada) – Então mãe, fez?

Margarida (chorando) – Sim, eu fiz, fiz uma coisa horrível, deixei aquela criatura de Deus lá tendo como teto o céu. (gritando) MEU DEUS, MEU DEUS COMO PUDEMOS FAZER TÃO MAL À UMA CRIATURA INOCENTE.

Marta (desabafando) – Mal pior seria se ela continuasse aqui. Sem chances de vida. Onde a senhora colocou ela com certeza é melhor. Ela será encontrada por uma família que tem condições de cuidar dela.

05h00min – Todos os dias a Larissa patroa da Margarida saia para caminhar, quando então acessa a rua ela escuta um choro abafado, desesperado pela liberdade.

Larissa – Mas que barulho é esse de criança chorando?

- Mas e esta caixa aqui?

A mulher então chega mais perto da caixa e logo percebe que ali dentro tem uma criança.

Larissa (chocada) – Meu senhor dos Passos, uma criança. Alguém abandonou uma criança bem em frente a minha porta!

Ela pegou a criança, olhava atentamente para aquela pequenina menininha. A menina parou de chorar e a encarou, um olhar firme, misterioso.

Larissa – Não se preocupe, você está salva agora. Infelizmente uma mulher despreparada sem pudor te abandonou. Mas eu estou aqui para te amar como se fosse o meu sangue.
Larissa chora de felicidade e indignação ao mesmo tempo. Ela se sentia como uma mãe que acabou de dar a luz. A comoção era intensificada, pois ela não podia ter um filho e o seu marido não aceitava um adotivo. Mas apesar disso ela estava disposta a lutar para continuar com a menina. 

CENA 2
08h00min

O garoto olha atentamente para o caixão, os seus olhos estão vazios, apesar de abertos eles não enxergam nada. O menino está distante, onde ele está? 
Em um lugar sagrado, divino e ao mesmo tempo pavoroso, pois ali não é o lugar ideal para ele, ali não reina a vida. Mas isso não importa, pois ali em sua frente está tudo que ele precisa.

Wagner (triste) – Por que a senhora foi embora? Deixou eu aqui sozinho sem nada. A senhora não me ama?.

Jéssica (comovida) – Não pude ficar ‘meu coração’, tive que ir embora, já era hora de ir. Bem que eu queria ficar para cuidar de você, mas infelizmente não foi possível, a minha jornada acabou. 

Wagner (triste)– Mamãe eu preciso de você aqui comigo, o que vai ser de mim? Sem a senhora eu não posso, eu não consigo viver.  Sabe, pensei bastante e decidir que vou morar com a senhora, vou morar aqui neste lugar mamãe.

Jéssica (comovida) – Não diga isso você não pode fazer isso querido. Olha ouça e obedeça, você tem um caminho a ser percorrido, vejo nos seus olhos que sua vida será árdua, haverá muita dor e sofrimento. Mas isso não é motivo de querer abandoná-la. Afinal se você fizer o que pensa em fazer, com certeza não me veria. Pessoas que tiram a própria vida vão para um lugar desconhecido, elas são apagadas da memória de Deus.

Wagner (triste) – Deus já me esqueceu, faz tempo mamãe.

Jéssica (comovida) – Não diga isto, está pecando contra o Nosso Senhor. Bom meu filho vou me juntar ao outros, lamento, mas a partir de agora não nos veremos mais.

O espírito da mulher fecha os olhos e some, ele continua ali, não queria voltar. Sua tia que desde que chegou não saiu do lado do garoto percebe que ele está longe, ele ouve seus murmúrios. Ela o chama.

Tia Elisabete – Venha comigo meu príncipe, venha descansar um pouco.

Wagner (triste) – Não vou sair daqui. Não vou sair de perto do corpo da minha mãe. Tenho que ficar perto dela até ela ir embora por definitivo.

A tia se surpreende com a maturidade do menino. Realmente não é comum para um menino de esta idade reagir desta forma.

A justificativa para observação da tia é complicada, só o tempo pode mostrar que esse menino não é como os outros. ENTÃO O QUE ELE É?

CENA 3

08h00min

Margarida está nervosa desde que chegou para trabalhar.

Margarida (pensando) – Ela não estava mais lá! Será que a patroa achou a menina?

10h00min

A patroa chega feliz em casa com a menina nos braços. Margarida se assusta, o seu coração acelera, quando vê a sua neta nos braços da Larissa.

Larissa – Margarida você nem vai acreditar...

Larissa conta todos os fatos para a Margarida que não consegue para de olhar para a criança. A avó não consegue segurar e chora, chora lágrimas de amargura.

Larissa – Margarida calma, por que esse choro tão dolorido menina?

Ela mente.

Margarida – Sabe patroa, fico muito comovida com estes acontecimentos, meu coração aperta.

Larissa – Sei ainda mais para uma mãe e avó, pois logo seu netinho ou netinha vai chegar, não é?

Margarida assustada treme na hora da resposta.

Margarida – Si-im, está qua-qua-se nascendo.

Larissa começa a brincar com a criança e toda feliz diz.

Larissa – A menina será minha, minha filha, aquela filha que eu não posso gerar.

Margarida – Mas e o Adailton, ele vai aceitar.

Larissa – Na verdade meu marido nunca aceitou um filho adotivo, mas eu insisti e ele cedeu, até se emocionou. (risos) Ele queria um menino, para ser herdeiro de suas fabricas, mas Deus lhe deu uma menina, que com certeza irá trazer muitas alegrias para nós.

A menina olha atentamente para a avó, parecia reconhecer a mulher que a deixou no relento. O olhar da pequena era acusador e o seu sorriso enigmático era a sentença. Todos ao redor iriam sofrer. Quem devia e quem não devia iria pagar.

A menina tinha o mesmo olhar de Wagner.

Larissa – Esta linda criança se chamará Lorena, sim a minha Lorena.

A menina aprova o nome, enquanto Margarida repete em silêncio o nome da neta que abandonou.

CENA 4

MESES DEPOIS...

O Wagner mais uma vez está em seu canto no pátio da nova escola. Ali se tornou o seu refúgio, ele fugia daqueles que o perseguia. Mas não demorou muito, os meninos descobriram sua fortaleza e mais uma vez o Wagner apanha.

Horas depois.

Já em casa Wagner descansava e um sono profundo lhe acometeu. Mas algo estava errado alguém vinha em direção a sua cama. O homem desfigurado se aproximava rindo cantando, logo estava em cima do garoto, o seu sorriso traduzia as suas intenções. O Homem abre o zíper logo o pênis duro dele se apresenta. Wagner percebe e tenta fugir, mas o homem o agarra tira a roupa dele e começa a estuprá-lo.

Wagner (gritando) – SAIA DE CIMA DE MIM, ME DEIXE, NÃO COLOQUE ISSO EM MIM... VOCÊ QUE UM DIA FOI O MEU PAI.

A tia do garoto corre desesperada abre o quarto e vê o menino se debatendo na cama.

Tia Elisabete – Wagner acorda, acorda garoto.

O menino acorda atordoado e logo vê que o homem não estava ali. Era um pesadelo.

Wagner – Tia era o Jonas, ele veio fazer comigo do mesmo jeito que ele fez com a minha mãe.

Tia Elisabete – Calma só foi um pesadelo garoto, não temas.

Wagner – Tia enquanto me machucava, ele voltou a repetir que eu sou um demônio.

Tia Elisabete – Como eu te disse foi só um pesadelo.

O menino novamente sentia ódio, um ódio capaz de amedrontar os céus e também os infernos.

CONTINUA

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